A música “Alegria, Alegria”, escrita e interpretada pelo cantor baiano Caetano Veloso, foi lançada no ano de 1967. O período histórico na qual se encaixa corresponde à ditadura militar no Brasil, presidida até março por Humberto Castelo Branco e, em seguida, por Artur Costa e Silva, sendo o segundo presidente do regime militar. Naquele ano, fora promulgado o quinto ato institucional (AI-5), que além de fechar o Congresso Nacional e cassar políticos, também institucionou a repressão, ou seja, concedeu aos militares o direito de reprimir militantes que não fossem de encontro às ideias do governo. Sendo assim, meios de repressão como a tortura aos movimentos considerados esquerdistas faziam parte dos valores do Estado.

Enquanto as camadas mais baixas da população se contentavam com a forma de governo, que prezava pela própria segurança, religião e uma educação condizente com aquela moral, surgiam também os insatisfeitos com a forma de governo. E na música, nascera o movimento que ficou conhecido como Tropicália, um coletivo de artistas em busca de uma nova antropofagia, ou seja: absorver toda a cultura nacional (o que incluía a vanguarda, o samba, bossa-nova, bolero, baião, concretismo e o próprio Movimento Antropofágico do período modernista), aplicar as inovações do cenário internacional que também expressassem o que precisava ser dito aqui no Brasil e, por fim, passar ao público uma novidade focada sobre o cotidiano dos brasileiros através de uma linguagem diferenciada e inovadora, que serviu como munição contra a política ditatorial.

A música Alegria, Alegria

  1. Caminhando contra o vento

Sem lenço e sem documento

No sol de quase dezembro

Eu vou

 

  1. O sol se reparte em crimes

Espaçonaves, guerrilhas

Em Cardinales bonitas

Eu vou

 

  1. Em caras de presidentes

Em grandes beijos de amor

Em dentes, pernas, bandeiras

Bomba e Brigitte Bardot

 

  1. O sol nas bancas de revista

Me enche de alegria e preguiça

Quem lê tanta notícia

Eu vou

 

  1. Por entre fotos e nomes

Os olhos cheios de cores

O peito cheio de amores vãos

Eu vou

Por que não, por que não

 

  1. Ela pensa em casamento

E eu nunca mais fui à escola

Sem lenço e sem documento

Eu vou

 

  1. Eu tomo uma Coca-Cola

Ela pensa em casamento

E uma canção me consola

Eu vou

 

  1. Por entre fotos e nomes

Sem livros e sem fuzil

Sem fome, sem telefone

No coração do Brasil

 

  1. Ela nem sabe até pensei

Em cantar na televisão

O sol é tão bonito

Eu vou

 

  1. Sem lenço, sem documento

Nada no bolso ou nas mãos

Eu quero seguir vivendo, amor

Eu vou

  1. Por que não, por que não

Por que não, por que não

Por que não, por que não

Por que não, por que não

 

 A tropicália

A tropicália, ou movimento tropicalista, é um movimento artístico voltado para uma releitura dos recursos musicais da forma mais “abrasileirada” possível, o que ganhou a esfera nacional no ano de 1967. 

Encabeçado pelos cantores Caetano Veloso e Gilberto Gil, este movimento influenciou mais artistas, não só na música, entre os quais pode-se citar: Gal Costa, Os Mutantes, Tom Zé e cineastas como Rogério Sganzerla, Glauber Rocha e Nelson Pereira dos Santos. O cotidiano como temática escondia o tom crítico do movimento, que servia de arma contra o militarismo vigente no Brasil, e a escrita nas entrelinhas era a forma mais segura de protestar, afinal, o AI-5 limitava os pensamentos da população e expandia o poder dos militares, no que ficou conhecido como “Anos de Chumbo”.

Conceito de primeiridade

A primeiridade na concepção do linguista Charles Pierce é a primeira impressão que o signo passa. A mensagem imediata e concreta, sem profundidade, mas que pode satisfazer o receptor da mensagem em leituras que usam linguagem denotativa. Isso significa que nem sempre o receptor precisa interpretar a mensagem além da primeiridade quando esta é concreta por si só. Exemplo: “O céu está azul”.

A primeiridade no objeto da análise

Em uma análise pouco profunda, o receptor da mensagem recebe como primeira mensagem o título: “Alegria, Alegria”. Este título chama o receptor para uma canção que trate sobre o sentimento de alegria, positividade e euforia. Entretanto, o desconforto de caminhar contra o vento, que é cantado no primeiro verso, contrapõe a ideia do título. Sendo assim, já torna-se cabível a análise de secundidade. São poucos os versos condizentes com o sentimento de alegria. Ainda no aspecto de primeiridade, é muito difícil entender a função do eu-lírico e dos substantivos, como “espaçonaves”, “cardinales [bonitas]”, “bomba e Brigitte Bardot”, “O Sol”, o “casamento” entre outros.

Algumas outras expressões não têm seu significado explícito. Quase todas as estrofes terminam com “Eu vou”, e isso passa um aspecto de continuidade a partir do primeiro verso. Entretanto, é necessário partir para a secundidade, assim como no final da canção, que repete oito vezes a pergunta “Por que não?”.

Conceito de Secundidade

A segunda análise de um um discurso tende a ser mais profunda do que a primeira, e a base desta leitura não é apenas o discurso em si. É uma análise que parte para o factual e o contexto histórico passa a ser fundamental para a compreensão neste nível. O discurso pode se tratar de uma causa ou trazer uma consequência, mas de qualquer forma, é na secundidade que o receptor consegue enxergar ações e reações ou quaisquer outras relações diáticas.

A secundidade no objeto da análise

Obtidas as informações sobre a tropicália, a segunda análise já muda muito em relação à primeira. A alegria do título deixa de ser um sentimento de euforia e positividade e torna-se uma ironia. Durante a ditadura militar, caminhar nas ruas em determinados horários era proibido, pois se enquadrava no crime de subversão – A não ser que o indivíduo possuísse um documento que provasse que ele estava trabalhando. Por isso, caminhar contra o vento (expressão semelhante à nadar contra a corrente, que é mais usual) tem o sentido de contrariar-se ao movimento vigente e seguir um sentido alternativo, sem prender-se ao certo ou errado. A liberdade para ter estes direitos que hoje não parecem tão complexos era um anseio de Caetano Veloso.

Comparativo: “Caminhando contra o vento” ou “contra a corrente”

A oposição ao militarismo numa oposição expressa através deste tipo de metáfora coincide em uma outra música, interpretada por Chico Buarque também no ano de 1967:

 

“A gente vai contra a corrente

Até não poder resistir

Na volta do barco é que sente

O quanto deixou de cumprir

Faz tempo que a gente cultiva

A mais linda roseira que há

Mas eis que chega a roda-viva

E carrega a roseira pra lá”

 

Nesta estrofe da canção de Chico Buarque, a expressão é parecida e o objetivo é o mesmo: opor-se ao governo vigente na formação de um movimento alternativo, neste segundo caso, no plural. Entretanto, a canção de Caetano Veloso é individualizada pelo eu-lírico, e satisfaz o receptor na secundidade.

 

A secundidade nos substantivos próprios

A música Alegria, Alegria esconde alguns títulos e nomes em seus versos. Primeiramente, os objetos trazidos da cultura considerada alienante: as atrizes Cardinale e Bridget Bardot e a marca Coca-Cola são citadas (respectivamente, nas estrofes 2, 3 e 7). Seguindo a linha de raciocínio, o eu-lírico mostra que os produtos desta cultura não necessariamente o levam a mudar de ideologia. O tropicalismo não mostrava posição totalmente favorável à este tipo de cultura, desde que o público entendesse que estes objetos fazem parte de um outro contexto social que em nada se assemelhavam com o que se passava no Brasil. Rejeitar a cultura européia e norte-americana não era um objetivo também; um exemplo disso é a influência dos artistas plásticos percursores da pop art sobre os tropicalistas em relação à estética.

Outro título que aparece na canção por três vezes (“O sol se reparte em crimes” – estrofe 2 / “O sol nas bancas de revista” – estrofe 4 / “O sol é tão bonito” – estrofe 9). Trata-se do jornal carioca “O Sol”, fundado por jovens estudantes que discordavam da política vigente. O estilo alternativo do jornal fez dele um jornal inovador. Por ser independente, os recursos financeiros faziam com que o jornal não tivesse muitas páginas, mas entre elas, as notícias dos protestos contra o governo tinham um grande espaço, além das charges que, em tom cômico, criticavam a ditadura. O espaço do jornal para a cultura voltava-se para os artistas da “contra-cultura”, e entre eles, estavam incluídos os artistas do movimento tropicalista, inclusive Caetano Veloso. Era um jornal que, como a música diz, causava no público – formado também por jovens – um sentimento de alegria, devido à identificação com as ideias, e preguiça também, afinal, os fatos se repetiam.

A terceiridade no objeto da análise

A partir da secundidade, as funções de linguagem tornaram-se visíveis (utilizando dos conceitos de R. Jakobson). Mas há trechos em que é possível combinar funções de linguagem para buscar uma nova possibilidade de significação. Primeiramente, a ênfase na expressão “Eu vou”. Esta expressão mostra uma disposição do eu-lírico para buscar a liberdade, que é a causa principal deste discurso.

Comparativo: “Eu vou, eu vou” vou ou “Vem, vamos embora”

Além das músicas “Alegria, Alegria” e da citada “Roda Viva” de Chico Buarque (Cap. 3.2.1), que atendiam pelos gêneros musicais da tropicália e bossa nova, respectivamente, houve também o gênero de música de protesto. Mais precisamente, o cantor Geraldo Vandré usava de um estilo instrumental mais próximo do erudito, mas as letras de suas músicas e a própria postura do cantor  soavam como uma convocação para a luta contra os militares, sendo que a música Pra não dizer que não falei das flores tornou-se um verdadeiro hino da luta armada de esquerda no Brasil.

Vem, vamos embora

Que esperar não é saber

Quem sabe faz a hora

Não espera acontecer

Nesta música de Geraldo Vandré, que foi lançada no ano de 1968, o tom de protesto também é analisado na secundidade: o envolvimento dos signos com o contexto histórico é fundamental para a interpretação da música. Tendo em vista que foi escrita no período da ditadura, o uso da primeira pessoa no plural soa como uma convocação para que todos juntem-se ao eu-lírico em busca de um objetivo. É necessário lembrar que o músico Geraldo Vandré posiciona-se de forma veemente contra o movimento tropicalista, por acreditar que o intuito da releitura dos elementos brasileiros e estrangeiros em busca de uma nova definição de cultura para o Brasil fosse prejudicial, pois escondia a ideologia e massificava a cultura e objetivo de criar algo totalmente novo, na verdade, resultou em mais do mesmo, para Vandré.

De qualquer forma, a música de Caetano Veloso não usa a primeira pessoa do plural, e ao contrário do comparativo com a música Roda Viva de Chico Buarque, este é o fator que exige do leitor uma análise em terceiridade. Se o intuito de Caetano é, de fato, buscar a liberdade que fora barrada pelo militarismo, por que “eu vou” em vez de “nós vamos” ou algo semelhante? A resposta está em outra expressão muito enfatizada, repetida 8 vezes na última estrofe: “Por que não?” – Esta frase soa como uma réplica para a resposta do receptor, para que este se  questione sobre a importância de ir em busca de liberdade.

“Ela pensa em casamento”

A expressão “Ela pensa em casamento” aplicada ao contexto histórico não satisfaz o receptor no aspecto de secundidade, pois a música não fala sobre amor e o pronome “Ela” é a única coisa próxima de ligar o eu-lírico à uma mulher. Mas é possível interpretar o casamento fora do aspecto de união de um casal, mas a postura que exigem do eu-lírico como alguém fiel e que respeite o conceito de família que a constituição daquele período impunha. Sendo assim, “Ela” não é uma mulher apaixonada, mas sim a ditadura. O casamento é a fidelidade com os militares, que pregavam patriotismo através do slogan “Brasil: Ame-o ou Deixe-o”.

A continuação deste verso na sexta estrofe diz: “E eu nunca mais fui à escola” . O uso da entidade escolar no verso a partir da ressignificação de “casamento” como patriotismo faz referência às matérias escolares que ensinavam aos jovens a importância do patriotismo, como educação moral e cívica, estudos sociais e educação religiosa católica. Sendo assim, o eu-lírico se isenta da necessidade de ser alguém patriota, e pretende buscar a liberdade em vez de prender-se ideologicamente ao país.

Conclusão

A análise de Caetano Veloso sobre a ditadura militar foi cantada em Alegria, Alegria, e outros artistas fizeram análises igualmente críticas, como os citados Chico Buarque e Geraldo Vandré, entre outros. Infelizmente, algumas pessoas não-públicas também procuravam as formas possíveis de protestar, e entre presos políticos e exilados (como foi o caso do próprio Caetano Veloso), houveram também os desaparecidos, que nunca foram e nem serão encontrados. Muitos derramaram sangue no passado até que o Brasil chegasse novamente ao sistema político vigente, mas a arte foi fundamental para que a população tomasse consciência. Hoje, por mais que possa haver discordância em relação ao governo, o direito de discordar é assegurado pela lei, diferente do período da ditadura militar.

No ano em que a canção Alegria, Alegria alcançou o Festival de Música da TV Record, a plateia acolheu a música muito bem, ao contrário dos jurados, e ficou em quarto lugar. Caetano Veloso e o grupo Beat Boys interpretavam a música e a platéia também cantava, com os braços abertos: “Por que não?” – Foi a popularização de Caetano Veloso e a aceitação da música e do movimento.

Por ter se popularizado tanto, Alegria, Alegria ganhou muitas análises. A popularização da Tropicália era necessária para que ela fosse um organismo vivo, mas artistas como Geraldo Vandré não viam esta releitura como arte, e sim como massificação. No estudo de comunicações, massificar diminui as possibilidades de interpretação, fazendo com que a maior parte de receptores leiam a mensagem da forma mais parecida possível, de forma prática e que evite tais análises. E analisando a letra de Alegria, Alegria com auxílio da leitura dos linguistas Pierce e Jakobson, é impossível acreditar que esta canção não seja o organismo vivo, transitório e sempre existirão diferentes formas de interpretá-lo.

 

Referências Bibliográficas

PUC-RJ – Um jornal contra o vento da ditadura – Disponível em: http://puc-riodigital.com.puc-rio.br/Jornal/Pais/%22O-Sol%22,-um-jornal-contra-o-vento-da-ditadura-1373.html#.VCFoj9Ip9VI

ANÁLISE DE LETRAS – Alegria, Alegria – Disponível em: http://analisedeletras.com.br/caetano-veloso/alegria-alegria/

 

MÍDIA ALTERNATIVA – Jornal “O Sol” – Disponível em: http://midiaalternativabypc.blogspot.com.br/2007/04/jornal-o-sol.html

SOFTWARE LIVRE – O Toque de Recolher – Disponível em: http://softwarelivre.org/cecup/o-toque-de-recolher-por-edmundo-kroger?view=true

LETRAS DE MÚSICA – Alegria, Alegria; Roda Viva e Pra Não Dizer Que Não Falei Das Flores – Disponível em: http://letras.mus.br/

MPB SAPIENS – Roda Viva – Disponível em: http://mpbsapiens.com/roda-viva-o-divisor-das-flores/

 

INFO ESCOLA – Semi-ótica -Disponível em: http://www.infoescola.com/filosofia/semiotica/

APRENDENDO SEMI-ÓTICA – Primeiridade, secundidade e terceiridade – Disponível em: http://aprendendosemiotica.blogspot.com.br/2009/11/primeiridade-secundidade-terceiridade.htm

IDEOLOGIA E ALIENAÇÃO – Conteúdo de filosofia sobre Ideologia e Alienação – Disponível em: lhttps://sites.google.com/site/aloisiofritzen/Home/fotos/filosofia-conteudos/ideologia_alienacao

 

OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA – Diálogos da Contra-cultura brasileira – Disponível em: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/dialogos_da_contracultura_brasileira

TROPICÁLIA – A explosão de “Alegria, Alegria” – Disponível em: http://tropicalia.com.br/eubioticamente-atraidos/reportagens-historicas/a-explosao-de-alegria-alegria

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